(Autor: António Flórido / Pesquisa e estudo entre 2007 e 2010 / Revisto para correção do Acordo Ortográfico em vigor em janeiro de 2026)
No século III nasceu Julião, filho de um casal cristão muito devoto e rico que lhe deu uma educação esmerada e requintada desde a tenra idade. Depois, desejosos de ver o filho bem casado para constituir uma sólida e cristã família, decidiram consolidar o seu matrimónio, aos dezoito anos, com a jovem Basilissa. Extremamente obediente, o rapaz, que nunca havia mencionado seu voto de castidade à família, realizou o sonho dos pais e se casou com a bela e suave jovem que, como ele, procedia de uma próspera e bem situada família seguidora dos mesmos preceitos cristãos que a de seu noivo.Uma vez casados, Julião, com gentileza, conversou com a esposa Basilissa e juntos fizeram um pacto de consagração a Deus para se dedicarem a Seu serviço, apesar do sacramento matrimonial. Assim a união carnal não se concretizou e ambos permaneceram virgens. Somente após a morte dos pais é que os dois puderam viver a vida espiritual na plenitude almejada. Usando seus bens, cada um fundou um mosteiro: Julião, o masculino e Basilissa, o feminino. Com o saldo do património mantinham várias obras de caridade e sustentavam os mosteiros, que funcionavam também como hospitais para atendimento dos mais necessitados. O de Basilissa atendia especialmente aos leprosos.
Nesse período o Cristianismo vivia os seus tempos mais trágicos, o das perseguições sanguinárias impostas em todo o Império pelos tiranos Diocleciano e Maximiano. Em auxílio aos cristãos surgiu Julião, que em certa altura chegou a abrigar em seu mosteiro mais de um milhar que procuravam refúgio das implacáveis investidas. Porém foi denunciado e viu aos poucos todos serem julgados e condenados ao suplício e à morte pelo testemunho da fé. Até que chegou sua vez. Como se recusou a adorar os ídolos pagãos e renegar a fé em Cristo foi martirizado por um longo período. Segundo os registos dessa época arquivados pela Igreja, o período foi descrito como de muitas torturas e sofrimento, mas também de muitos prodígios e graças ocorridos através das mãos de Julião.Julião terá nascido em 250 e foi finalmente assassinado e pôde descansar em paz em 09 de Janeiro do ano de 302 (*1).
O povo passou a reverenciar sua imagem com alguns dos símbolos que caracterizaram a sua vida: a Bíblia, fundamento da sua fé e a fonte de onde bebeu o amor ao próximo; a palma, símbolo do martírio; e a capa arrepanhada e puxada para cima para facilitar o seu andamento, símbolo da sua disponibilidade para os outros.(*2)
Basilissa conseguiu ser poupada, vivendo junto aos mais miseráveis e pobres leprosos os quais tratava como filhos. Ela morreu algum tempo depois, dizem que em 18 de Novembro de 304, tendo promovido muitos prodígios de cura e graças.
..............................
Cerca
de 3 séculos depois, junto à foz de um rio denominado Mondego (*3)
na altura um lugar isolado e remoto, foi edificada uma abadia para
acudir aos pescadores de lugares das redondezas - esses sim habitados
- tais como Vila Verde, Caceira e Lavos, e que regressavam da faina
necessitando de ajuda.
Foi esta
intenção de ajuda aos homens que vinham do mar que levou à
atribuição da designação de São Julião à então abadia, devido
a ele também ter vivido numa cidade junto a uma foz (Antinoe, Vale
do Nilo) e ajudado espiritualmente e na doença as suas gentes.
(*4).
Esta Abadia foi destruída em
717 pelos sarracenos e assim ficou até 1080, ano em que o Conde D.
Sisnando ordenou a edificação de várias igrejas na região e a
reconstrução da igreja junto à foz do Mondego com uma boa torre,
bem como a construção de casas em seu redor. Atribuídas as terras,
foi o Abade Pedro o encarregado de tal missão, executada em 16 anos.
Em 1096 o Abade Pedro faz a doação da Igreja de São Julião à
Igreja de Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria da Sé Episcopal
de Coimbra (*5).
As
casas deram origem a uma povoação, que logicamente baseou na igreja
o seu nome: São Julião da Foz do Mondego (*6). Terá sido nesta
data que surgiu esta primeira designação do casario que deu origem
ao atual nome de Figueira da Foz.
Na
segunda designação já entra a palavra “figueira”, e “São
Julião” fica unicamente confinado à igreja. Com o avolumar do
povoado, eram muitos os barcos de vários casarios junto ao Mondego
que desciam o rio até à foz para comerciar produtos, simples
passeios ou veraneio, aqui amarrando os barcos a uma copada de
árvores, onde existia uma frondosa figueira (*7) e em cuja sombra os
barqueiros serranos faziam as suas transações, permutando com os
moradores lenha e carqueja da respetiva produção, por sal e peixe
fresco. Era a Figueira da Foz do Mondego e estava-se em 1237, ano em
que o Cabido da Sé de Coimbra concessionou os lugares de Figueira e
Tamargueira a Domingos Ioanes, Martinho Miguel e Martinho Gonçalves
(*8).
Uma informação paroquial
datada de 1721 fornece alguns pormenores importantes sobre o notável
e popular lugar ou vila.(*9).
Em 1771
foi elevada à categoria de Vila (*10) por D. José I. Foi a partir
desta data que o nome se foi simplificando e que tomou,
definitivamente, a designação de Figueira da Foz.
Os
últimos 30 anos do século XIX são fecundos em realizações. Foi
neste período que a Figueira da Foz foi elevada a cidade, no ano de
1882 (*11). Nos dez anos que precederam a elevação a cidade
registou-se um conjunto assinalável de obras demonstrativas da
pujança do lugar.
*************************************************************************************************
(*1) São Julião terá
nascido em
250, segundo uma cronologia indicada
pelo prior José dos Santos Palrinhas (da Monografia da Freguesia de
S. Julião da Figueira da Foz, do historiador Rui A.C.Cascão,
citando Francisco dos Santos Viegas).
A
igreja reverencia a memória do casal Santo Julião e Santa Basilissa
no dia 06 de Janeiro. Nele também encontramos a correção de suas
origens citada antes como sendo da Antioquia mas que se comprovou ser
de Antinoe, capital de Tebaide, no Egipto. Entretanto, algumas
regiões ainda os celebram no dia 09 de Janeiro. (N.A.: Como é o
caso da Figueira da Foz). Este é um historial atualizado pela Santa
Sé no recente e corrigido Martirológio Romano. Este novo
Martirológio Romano foi apresentado, no dia 2 de Outubro de 2001, na
Sala de Imprensa da Santa Sé, pelo Prefeito da Congregação
Vaticana para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal
chileno Jorge Arturo Medina Estevez. Esta obra lista os beatos e os
santos reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica e é destinado
a celebrar a santidade, esse dom extraordinário, fruto da vocação
cristã. Com a beatificação, por João Paulo II, de 1265 pessoas e
a canonização de outras 452, a atualização desta listagem
tornava-se urgente, tanto mais que a sua última edição datava já
de1956.
Ao todo são 6538
nomes de santos e beatos, apesar de os santos e beatos referidos
serem muitos mais, pois é desconhecido o nome de muitos mártires,
que pereceram anónimos.
Excluídos
do Martirológio ficaram muitos nomes, cuja santidade não é
reconhecida oficialmente pela Igreja Católica, por as suas histórias
se confundirem muitas vezes com lendas
O
primeiro Martirológio Romano tinha sido aprovado pelo Papa Gregório
XIII e publicado em 1586.
.................................
Em
fins de 2008 e em 2009 o autor solicitou a algumas instituições
católicas, nacionais e estrangeiras, dados históricos e
bibliográficos sobre São Julião, essencialmente procurando obter
respostas sobre “qual” o São Julião seria o da Figueira da Foz
(pois subsistiam dúvidas entre dois ou três santos com o mesmo
nome). Recebemos alguns dados pouco consistentes mas, do Secretariado
Nacional de Liturgia, veio a seguinte resposta:
“Os
martirológios do Ocidente fazem menção de Julião e Basilissa em
diferentes dias do mês de Janeiro; um antigo leccionário da Igreja
de Paris coloca a sua festa a 6 de Janeiro, mas, por causa da
Epifania, ela devia ser trasladada para o dia 9 ou noutro dia do
mesmo mês» (Da enciclopédia teológica «Catholicisme», "Vie
des Saints et des Bienheureux selon l'ordre du Calendrier" ...
par les RR. PP. Baudot et Chaussin, O.S.B.: t. I, Janvier, p. 171)
(...) a "lenda" de S. Julião o Hospitaleiro é diferente
da "história" da Vida dos mártires Julião e Basilissa
(...) a hipótese mais plausível resume-se apenas ao S. Julião de 6
de Janeiro (S. Julião e S. Basilissa) que em várias regiões passou
para o dia 7 ou 8 ou 9 (por causa da Epifania). Este santo é por
vezes venerado juntamente com S. Basilissa, sua esposa, outras vezes
sozinho. E é muito provavelmente este que foi tomado para titular ou
patrono de muitas igrejas e povoações por várias regiões da
Europa. Frequentemente foi confundido com S. Julião o
Hospitaleiro.”
Delfim
Machado, colaborador do SNL (Secretariado Nacional de
Liturgia)
(01/Jun/009)
.................................
“Pela
existência duma antiga imagem, em pedra, de S. Julião Mártir, de
outra em obra de talha, que era venerada no Altar-mor; pela data da
festividade – 9 de Janeiro: se restabelece a verdade histórica
sobre o Orago da Freguesia, que é ab initio S. JULIÃO- MÁRTIR de
Antioquia, e não S. Julião-Mártir de Anjou, como durante muito
tempo se julgou”.
Da
Monografia da Freguesia de S. Julião da Figueira da Foz, do
historiador Rui A.C.Cascão, citando Francisco dos Santos Viegas.
.................................
Alguns
outros dados constantes do historial foram recolhidos do “site”
Quiosque Azul”.
(*2) Dados
fornecidos pelo Cónego João Veríssimo.
(*3)
Note-se que o rio que desagua junto da Figueira da Foz já era
referido na Geografia (livro III, cap. 3, § 4), obra do grego
Estrabão (séc. I a.C. – séc. I d.C.), onde se afirmava: “Os
rios mais conhecidos imediatamente a seguir ao Tejo são o Mondego
(Mundas), que permite pequenas viagens em direção ao interior, e
também o Vouga (Vacua)”.
(*4)
Ouvido nas homilias do padre Arménio Marques nos anos 70 e 80 nas
missas celebradas em louvor de S.Julião e testemunhadas por
paroquianos presentes.
(*5) Na
doação que o Abade Pedro fez à sé de Coimbra da igreja de S.
Julião (que aqui reproduzimos, em parte) consta a herdade de
Lavalos. O Abade Pedro era de origem mocárabe e tinha recebido do
conde Sisenando "o encargo de restaurar as terras deste trato da
orla marítima, devastadas pelas guerras da reconquista"
(1080).
Após a morte do Abade
a região voltou a ser assolada por sarracenos e só depois da
conquista de Lisboa (1147) foi povoada de vez. O bispo de Coimbra,
João Anaia (1148-1154) projectou restaurar S. Julião, S. Paio,
Lavos, Buarcos, Casseira e S. Martinho de Tavarede, "distribuindo
estas vilas por sete colonos". Estes, entraram em disputas uns
com os outros a propósito dos limites das terras e o mesmo aconteceu
entre a Sé e o mosteiro de Stª Cruz de Coimbra. Em 1190 ainda a Sé
e os frades cruzios disputavam o território - aproveitando
dissidências entre o rei e o bispo - conseguindo estes que D. Sancho
I lhes fizesse nova doação das terras em 22 de Setembro de 1202.
O
TESTAMENTO DO ABADE PEDRO:
"Ego
petrus abbas propter amorem sanctae it indiuiduae trinitatis facio
kartam testamenti eclesiae sanctae dei genitricis semperque uirginis
mariae episcopalis sedis colimbriensis de aeclesia sancti iuliani
quae est sita in septemtrionali ripa mondeci fluminis prope litus
maris quae condam depopulata et destructa fuit a sarracenis...."
"Eu,
Pedro, abade, por amor de Santa e Indivídua Trindade, faço à
igreja de Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria da Sé episcopal
de Coimbra, doação da igreja de S. Julião, que está situada na
margem norte do rio Mondego, junto à praia, a qual noutro tempo foi
saqueada e destruída pelos Sarracenos".
Começa
assim o testamento do abade Pedro, feito em 1096, conforme se acha
transcrito no Portugaliae Monumenta Historica.
O
Abade, pelos seus serviços, recebeu do conde Sisenando "além
da abadia de S. Julião, todas as terras cultas e incultas que
ficavam ao oriente, designadas já naqueles tempos pelos nomes de
Casseira, S. Veríssimo (Vila Verde) e Fontela, o que junto com a
herdade de Lavos constituía uma grande riqueza".
(*6)
Portal da Paróquia de S.Julião e Álbum Figueirense.
(*7)
Porque não admitir que Figueira se relaciona mesmo com a árvore do
mesmo nome e que Munda (ou Monda) flumen significa simplesmente “rio
brilhante ou límpido”, derivando Mondego da forma adjectiva
Mondaecus?”
Da Monografia da
Freguesia de S. Julião da Figueira da Foz, do historiador Rui
A.C.Cascão, citando Francisco dos Santos Viegas.
(*8)
O primeiro documento conhecido que menciona expressamente a Figueira
(e não apenas S.Julião) data de 1 de Maio de 1237.
Da
Monografia da Freguesia de S. Julião da Figueira
da Foz, do historiador Rui
A.C.Cascão. – Ver também em DATAS HISTÓRICAS.
(*9)
Informação paroquial da Figueira da Foz do ano de 1721, escrita
pelo súbdito do P. Melchior dos Reys: (…) stá fundada esta igreja
em hum grande terreyro q. lhe serve de Adro, ou Semitério, não mto.
alto junto à Fos do celebrado Rio Mondego, de cujo citio Se estam
vendo não só as cristalinas agoas do dito Rio, q. com suas
continuadas navegaçois fica sendo mais plausível o Seo agrado, mas
também as crespas ondas do mar oceano, com cujas vistas fica o tal
citio não só aprazível à vista dando recreaçam aos olhos mas
tambél deleytavel pª a vivenda humana tendo da banda sul para
regallo o notauel e popullozo lugar, ou villa ( como el Rey N. S. q.
Ds. G. o Snr D. Joam 5º o tem em mtªas cartas q a alfandega delle
tem vindo appelidado) da Figueyra, digo, da Fos do Mondego, popullozo
em gente natural, e estrangrª de varias nasçõis q nelle fazem negº
e por isso tam cellebrado.
He
tradiçam tam antiquíssima q não há memória em contrario, e de
secullo pª século se foi sempre conservando a tal memoria q a
refferida Igrª e o seo principio foi Abbadia e esta do tempo dos
Godos, e q entrando em Espanhas o poder dos Sarracenos não escapou a
tal Igrª à fúria com que pretenderão destruillas asenhoreandosse
dellas por tempo de 800 anos, pois no tal tempo foi a dita Igrª
pellos referidos bárbaros arruinada, retirandosse dellas o Abade q
entam nella existia pª partes donde pudesse com segurança escapar a
vida, temendo o flagello cruel da morte e ahi passando athe q
retirados os inhumanos, e carnisseyros lobos famintos de sangue
catholico do tal citio tornou a elle o dito Abb. Com suas rendas, ou
com as rendas de sua Abbadia reyedificou a refferida Igrª das ruínas
em q. ficou posta, restaurandoa.
(…)
Nesta Igr. não há relíquia alguma de q se possa dar nota nem sua
freguesia tem capella ou ermida algua excepto em Villa Verde, no qual
há duas capellas hua de S. Aleixo q os moradores instituíram por
sua devoçam mas não se lembram do anno em q foi erecta, outra com o
titullo do Snr. Do Monte grão que he atado à colluna, a qual
instituhio Julliam Gonçalves e hoje admenistrador della o Rdº Pe
Custodio Gonçalves Aranha nAl de Villa Verde. (…) e não há nesta
freguezia CAza de Misericórdia, hospital ou recolhimtº e só hum
convento há com o titulo de S. António da Figrª de frades de S.
Francisco recolletos e sogeytos à província de Portugal o qual foi
fundado por Fr. António de Buarcos no anno de 1527.
(…)
o refferido asima é o q achey, pude descobir e me consta, o q
affirmo ser verdade e assim juro in verbo sacerdotis (…) e dou o
Ldº Melchior dos Reys Cura q prezente sirvo na refferida Igrª de S.
Julliam da Figueyra da Fos do Mondego, em os vinte e três dias do
mês de MAyo do anno do Nascimtº de N. Snr. Jezus Christo de Mil
Sete Centos e vinte e hum.
(*10)
Hey por bem erigir villa o
lugar da Figueira da Fós do Mondego e crear nella o lugar de juis de
Fora, Crime e orfaons que terá por destricto os coutos de Mayorca,
das Alhadas, Quiajos, TAvarede, LAvos e e az villas de Buarcos e
redondos e os ocnselhos e cituações a sul do rio chamado de Carnide
ou do Louriçal desde onde principia o destricto da Ouvedoria de
pombal ate o Moinho de Almoxarife que tudo hey por desmembrado do
destricto de Monte Mor o velho a quem ate agora pertenci e outrossim
hey por bem nomear para o logar de juis de Fora o bacharel Bento Joze
da Silva o qual fazendo a meu contento a dita creação se haverá o
dito logar por cabeça de comarca depois de me servir três annos e
os mais que decorrerem emquanto lhe não nomear successorPalácio de
Nossa Senhora de Ajuda em 12 de Março de 1771.
Album
Figueirense
(*11)
Em
1882 a cidade e a região conheciam um progresso de registo. Nos dez
anos que precederam a elevação a cidade registou-se um conjunto
assinalável de obras demonstrativas da pujança do lugar: em 1870
foi fundada a Empresa das Minas de Carvão do Cabo Mondego, que viria
a dar na Companhia
Mineira e Industrial do Cabo Mondego; em 1872 foi instalada a fábrica
de vidro do Cabo Mondego e em 1874 a Companhia conseguiu a desejada
ligação por via-férrea ao porto, através do Americano. Neste
mesmo ano iniciou-se a construção do Teatro Príncipe e no ano
seguinte a estrada em direcção a Leiria ( a estrada para Coimbra
precedeu esta alguns anos e diminuiu em 5 horas a viagem).Em termos
económicos a vila ganhava dimensão: para além das minas e do
vidro, tinham importância a extracção de pedra, a salicultura e,
claro, a pesca. Esta última sustentava um sector exportador que era
o das conservas, também a ganhar preponderância. Acresciam a
produção de cal e cimento (com força a partir da década de 80), a
cerâmica (destaque para a Manufactura Cerâmica Figueirense, a
funcionar no Viso), a metalúrgica (Mota de Quadros, 1878 e Oficinas
do Mondego, 1891), a construção naval e a exportação do vinho. Um
mês antes da elevação a cidade, foi aberta a linha da Beira Alta
(1882) e em 1888 chegou a Linha do
Oeste. De 1884 data o teatro Circo Saraiva de Carvalho, a adjudicação
da água (1886) e a iluminação a gás (1889). O mercado em 1892. Em
93 nasceu a Naval 1º de Maio e foi criada a Escola Industrial, em 94
o Museu, em 95 o Ginásio e o Coliseu e em 98 o edifício dos Paços
do Concelho e o Casino Oceano. É caso para dizer que os últimos 30
anos do século XIX, que assistiram ao nascimento da cidade, são
fecundos em realizações, embora do ponto de vista social se
conheçam períodos de grande fome (1876, 1878 e 1893). Em 1878 a
Figueira tinha 1080 fogos e 5676 habitantes e Buarcos 800 fogos e
3182 habitantes. Em 1886 assinalavam-se 6 hotéis.
Em
Janeiro de 1883 na revista O Ocidente escrevia-se (cit.por José
Jardim, “As grandes linhas de uma cidade”, Figueira da Foz
1947):
“A
Figueira é das povoações de Portugal que nos últimos tempos mais
se tem desenvolvido (…). Ainda nos princípios deste século
passado, era apenas uma aldeia com 300 habitantes e pouco mais
desenvolvimento tinha, quando em 1771 El-Rei D.José a elevou à
categoria de vila.
(…) Hoje,
a Figueira é uma cidade que está crescendo a olhos vistos,
organizando companhias edificadoras que têm aumentado
consideravelmente o número de edificações, ascendendo já a não
menos de 1600
fogos, com cerca de 6000 habitantes.
Possui
edifícios notáveis, incluindo um magnífico teatro e seu porto está
defendido por uma doca de construção recente (…O seu aspecto é
alegre e festivo e de um delicioso pitoresco, a par do seu belo
clima.
Este conjunto de
atractivos, chama um grande número de banhistas, na estação
própria, às suas magníficas praias.
O
seu comércio é importante, para o que lhe basta ter um magnífico
porto de mar por onde se exportagrande quantidade de sal, azeite,
vinhos e cereais, etc.Agora o caminho-de-ferro da Beira Alta vai
dar-lhe mais elementos de vida e desenvolvimento assegurando um
futuro próspero a esta boa terra.”
(Álbum
Figueirense, 1934 / 1940)
/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
ALGUMAS DATAS HISTÓRICAS ATÉ 1882, DATA DA
ELEVAÇÃO DA FIGUEIRA DA FOZ A CIDADE:
1080:
Estabelece-se em S. Julião o Abade Pedro, (enviado pelo Conde
Sesnando) com o objectivo de restaurar e povoar as terras devastadas
durante a Reconquista, e reconstruir a igreja.
1096:
O Abade Pedro manda construir casas junto à Igreja de S. Julião da
Foz do Mondego.
1143: D.
Afonso Henriques concede privilégios ao Mosteiro de Santa Cruz de
Coimbra. Entre eles metade da terra de Redondo, Lavos e
Quiaios.
1191: D. Sancho I doa
à Igreja de Santa Maria de Coimbra, a Vila de Tavarede.
1237:
Concessão dos lugares da Figueira e Tamargueira, a
Domingos Ioanes, Martinho
Miguel
e Martinho Gonçalves, pelo cabido da Sé de Coimbra.
1339:
D. Afonso IV compra uma das casas na Figueira da Foz de Buarcos, que
tinham sido levadas à penhora.
1342:
Doação de Foral a Buarcos, por D Afonso IV.
1390
:O Papa Bonifácio IX envia Bulla para o Reino, confirmando as
Igrejas da Figueira e Es
pinho.
1450:
É concedida Carta de Perdão aos pescadores de Buarcos por terem ido
à batalha de Alfarrobeira apoiar o Infante D. Henrique.
1456:
Partem caravelas de Buarcos a caminho de Ceuta.
1466:
D. João II recebe de seu pai a terra de Buarcos.
1516:
Concessão de Foral a Buarcos por D. Manuel I.
1522:
A costa figueirense e buarquense são assoladas por piratas. São
saqueadas casas, pessoas e bens de Igreja.
1565:
O pintor Diogo Botelho chega a Tavarede, para pintar o Retábulo da
Igreja de São Martinho.
1585:
Nasce a ideia da construção do Forte de Santa Catarina para a
defesa da barra de Buarcos (Figueira da Foz)
1602:
A Figueira da Foz e Buarcos são assoladas por piratas. A povoação
é saqueada, as igrejas são profanadas e o forte de Santa Catarina é
ocupado.
1640: A aclamação
pública de D. João IV de Portugal
é feita nas ruas da Figueira da Foz, Buarcos e Tavarede.
1643:
Foram iniciadas obras de reforço no Forte de Santa Catarina, quando
foi aumentada uma das cortinas da fortificação e ampliando-lhe a
artilharia para 15 peças de diferentes calibres.
1701:
É iniciada a construção de uma nova Igreja Matriz da Figueira da
Foz.
1755: O terramoto assola
a região. A Igreja Matriz de Buarcos é destruída.
1770—A
Câmara de Tavarede transferiu-se para a localidade da Figueira da
Foz devido ao seu desenvolvimento económico.
1771:
A Figueira da Foz é elevada à categoria de Vila por D. José
I.
1807: (Dezembro) O Forte de
Santa Catarina encontra-se ocupado por uma guarnição pertencente ao
exército de Junot.
1808: (15
de Março) As tropas invasoras comandadas por Junot dominam toda a
região entre Coimbra e Figueira da Foz. (A 27 de Junho) É tomado o
Forte de Santa Catarina aos franceses pelo grupo de voluntários
liderados pelo académico Bernardo António Zagalo. (Entre 1 e 3 de
Agosto) Desembarque do exército de Wellesley, futuro duque
de
Wellington, na costa de
Lavos, com 13.000 homens.
1810:
Uma epidemia assola a região da Figueira, originada pela grande
aglomeração de famílias fugidas do exército francês.
1822:
Morre Manuel Fernandes Tomás
1882:
Elevação da Figueira da Foz a cidade.
(FONTE-
FIGUEIRA DA FOZ. Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás -
Elementos subsidiários para o estudo do concelho da Figueira da Foz
: história local (1080-1822). Figueira da Foz : Câmara Municipal da
Figueira da Foz, 1989.)
********************************************************************************
Hoje
a Figueira é sede de um município com 379,06 km² de área e 63 135
habitantes (dados de 2008), subdividido em 18 freguesias. O município
é limitado a norte pelo município de Cantanhede, a leste por
Montemor-o-Velho e Soure, a sul por Pombal e a oeste tem litoral no
Oceano Atlântico.
********************************************************************************
UMA HISTÓRIA ROMANCEADA DA FIGUEIRA DA FOZ
Conta
uma velha lenda que no sopé da Serra da Boa Viagem, que fica muito
próxima da cidade,
existia um castelo onde vivia um rei, viúvo, e sua filha, Nahida,
para além de toda a corte.
Do
castelo via-se o mar e a serra, e diziam os “antigos” que, a sul
e a nascente, havia um belo
rio e uma enorme planície verdejante.
A rainha, que o rei amara perdidamente, morrera ao dar à luz a sua única filha, Nahida.
O
rei ficara de tal modo transtornado com a sua morte que impôs uma
lei que expulsava do castelo todas as famílias que tivessem filhos
varões com menos de 20 anos, assim como quem os viesse a ter até 20
anos depois do
nascimento de Nahida.
Pretendia
o rei, com esta medida, evitar que sua filha viesse a morrer de parto
como acontecera com a mãe, a sua idolatrada esposa.
Queria,
pois, que a filha, para quem transferira todo o afeto e amor que
tivera por sua esposa, vivesse muitos anos, para o que deveria ser
casta.
Deste modo a
princesinha não poderia conhecer nem brincar com qualquer criança
do sexo oposto.
A sua melhor
amiga, da mesma idade, Zahra, era a filha mais nova dum rico fidalgo
por quem o rei nutria especial simpatia e confiança.
Entre
as duas crianças havia uma enorme amizade e ternura.
A
vida ida decorrendo normalmente até que uma manhã Nahida foi
acordada subitamente pela sua ama que, aflita, lhe contou que seu pai
mandara expulsar do castelo toda a família de Zahra.
Durante
dois anos a princesa manteve-se presa dum profundo desgosto, que a
fazia chorar pela perda da amiga e da crueldade do pai.
Certo
dia a princesa arquitetou um plano para fugir do castelo. Esperou
pela noitinha e, enganando a vigilância dos guardas, caminhou em
direção ao rio, cuja água brilhava ao luar.
A
uma distância razoável do castelo avistou uma árvore frondosa,
para os lados da foz do rio. Aproximando-se, viu,
escondida entre altos juncos e alguns
salgueiros, uma cabana. Encaminhando-se, receosa mas cheia de
curiosidade, reparou num pequeno barco ancorado junto à entrada da
cabana.
No silêncio reinante
pareceu-lhe perceber o som de uma respiração compassada, como de
alguém que estivesse dormindo...
Avançando
sem ruído, foi entrando, deparando-se, primeiro, com remos, redes e
bóias suspensas dos ramos de um salgueiro. A um canto da pequena
cabana encontrava-se um catre vazio, coberto por tecido limpo e renda
fina. No chão, a seu lado, dormia tranquilamente um robusto cão, de
pêlo cuidado.
Tão silenciosa
como entrara saiu da cabana e, desistindo de fugir sem descobrir
aquele mistério, voltou ao castelo.
No
dia seguinte a velha ama contou à princesa que à volta do castelo
rondava um bonito e manso cão que parecia trazer amarrado à coleira
um pequeno objeto.
Na noite
desse dia a princesinha voltou de novo à cabana dos
salgueiros.
Dentro da cabana,
com todo o cuidado retirou da coleira do cão um pequeno invólucro
de cartão que continha dentro um manuscrito.
Surpreendida,
desenrolou-o e leu-o com os olhos rasos de lágrimas.
Era
uma mensagem da sua companheira de infância que fora expulsa por seu
pai.
Dizia-lhe que, se a
quisesse ver, fosse junto à figueira, perto da foz do rio, pois que
era debaixo dessa árvore que dormia quase todas as noites de verão,
por se sentir ali mais fresca e segura.
Nahida
acabara de ler o manuscrito que lhe era dirigido. Olhou em direção
à figueira e começou a correr como uma louca em direção à frondosa árvore que ficava perto da foz do rio
Ali
chegada, depois de se abraçarem e fazerem amor, juraram nunca mais
se separarem. O que acontecera foi que, ao nascer Samuel, lhe fora
dado o nome de Zahra, passando a andar vestido de menina. Os pais
tentaram evitar, daquela forma , serem desterrados para longe do
castelo.
Só que, certa noite
de verão, o rei surpreendeu, nus, sua filha e Samuel, beijando-se
apaixonadamente, o que o levou a expulsar do castelo a família de
Zahra/Samuel.
E foi por isso
que Nahida, depois de ler o manuscrito, correu para junto de Samuel,
encontrando-o junto da frondosa figueira que ficava perto da foz do
rio.
Pouco tempo depois,
providencialmente, o rei morreu.
Meses
depois ambos resolveram mandar erigir junto à velha figueira um
palácio de verão para assinalar para sempre o seu reencontro. À
volta desse palácio à beira rio foi surgindo, ao longo dos tempos,
uma bonita povoação de onde se avistava, a norte, no coração de
Buarcos, o castelo do reino do qual ainda hoje restam vestígios.
A
essa nova povoação, virada a sul do castelo, o povo passou a chamar
Figueira da Foz, em homenagem àquele atribulado e persistente amor.
Mariazita, julho de 2007.
*************************************************************************************************
O
FAMOSO POEMA DE ACÁCIO ANTUNES
(sem título)
Um
dia, à beira-mar; numa isolada costa,
Onde se ouvia só das vagas
o fragor,
De rochas eriçadas, aos temporais exposta,
Erguera
uma choupana um velho pescador.
À pobre habitação, nos
ermos areais,
Veio juntar-se em breve uma outra companheira;
Ao
pé dessa ergueu-se outra e outra, e mais e mais:
Fez-se uma
povoação às ondas sobranceira.
E o marinheiro, ao ver
surgir por entre as brumas
Esse branco estendal, risonho, à
beira-mar,
Julgava nele ver uma ave d´alvas plumas,
que, de
voar cansada, ali fora poisar.
Foi crescendo, crescendo a
pequenina aldeia
A remirar-se na água em curvas ondulantes,
E,
qual fada do mar, ou lânguida sereia,
Ia atraindo a si, de longe,
os navegantes.
A aldeia fez-se vila, e foi crescendo
ainda.
Tornou-se comercial, cheia de actividade,
Povoada,
industrial, e buliçosa e linda,
Até se transformar, por fim,
numa cidade.
Ei-la, um século após, a pequena aldeia,
Na
costa triste e só, de rochas eriçada,
A pobre povoação erguida
sobre a areia,
Essa fada gentil à beira-mar curvada!
É
que nos filhos seus enorme força existe:
Há o amor do trabalho e
o santo amor do lar;
E se um d’eles um dia a terra deixa
triste,
Sorri-lhe intimamente a ideia de voltar.
Dos mares
através, nas plagas mais distantes,
Vai nesses corações da
terra o nome impresso.
Trabalham com afã, impávidos,
constantes,
Esperando ansiosamente a hora do regresso.
E ao
voltar, quando ao longe, ainda através das brumas,
O pátrio lar
procura o seu ansioso olhar,
Da costa cá distante, essa ave
d’alvas plumas
As asas lhes estende, os filhos a chamar.
Em
paga, cada um que volta, à bela Ondina,
Uma pérola traz, um
brinde primoroso,
Que, curvando-se mais sobre a água
cristalina,
Ela acrescenta, rindo, ao seu colar gracioso
Por
isso é que da costa a mísera choupana,
Que o velho pescador um
dia levantou,
Se fez uma cidade alegre, linda, ufana,
E para
transformá-la um século bastou!
Por isso, no cristal da
linha calma e cérula,
Hoje, mais jubilosa, a face vem mirar,
E
saúdamos aqui uma fina pérola
Que vem da bela Ondina a fronte
engrinaldar.
Acácio Antunes – Poeta Figueirense (1ª
publicação em 1886)


